Produção agroecológica aponta soluções sustentáveis frente à crise climática

O Dia Mundial de Combate à Desertificação é celebrado no dia 17 de junho. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para alertar sobre os impactos da degradação ambiental, especialmente em regiões semiáridas, onde a perda da cobertura vegetal e o empobrecimento do solo comprometem a vida de milhões de pessoas.

De acordo com o Relatório Anual do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso da Terra no Brasil (MapBiomas), somente entre 2019 e 2024 o Brasil perdeu 9,8 milhões de hectares de cobertura vegetal nativa, área equivalente ao estado de Pernambuco ou à Coreia do Sul. Em 2024, foram desmatados mais de 1,2 milhões de hectares. Número que, apesar de ainda ser alto, representa uma redução de 32,4% em relação ao ano anterior, com queda registrada em todos os biomas.

Área do bioma Caatinga em processo de restauração. Foto: Fábio Arruda/arquivo CAR

Mesmo diante de avanços pontuais na contenção do desmatamento, os desafios seguem intensos no Semiárido brasileiro, especialmente na Caatinga, bioma exclusivamente nacional. É nesse cenário que a agroecologia tem se consolidado como uma estratégia de resistência e regeneração. Conduzidas por agricultores e agricultoras familiares, experiências agroecológicas têm mostrado que é possível recuperar a fertilidade da terra, preservar os recursos naturais e garantir segurança alimentar mesmo sob condições climáticas adversas.

De acordo com dados do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) divulgados em 2025, as áreas classificadas como suscetíveis à desertificação já correspondem a 14,2% do território da Caatinga, sendo impactadas de forma crítica e severa. Esses locais apresentam evidências visíveis de erosão e empobrecimento do solo, com perda significativa de nutrientes essenciais como carbono, fósforo e nitrogênio. O alerta se intensifica com os dados mais recentes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que mostram o surgimento inédito de áreas com clima árido no Brasil e a expansão do clima subúmido seco em regiões fora do Semiárido tradicional, como o Centro-Oeste e o Norte Fluminense.

“A perda de umidade avança para além da Caatinga, e o agravamento da crise climática, intensificado pelo desmatamento, queimadas e uso desenfreado de combustíveis fósseis, ameaça a capacidade produtiva das terras brasileiras”, explica Alexandre Pires, diretor de Combate à Desertificação no Ministério do Meio Ambiente. Ele aponta que, embora a Política Nacional de Combate à Desertificação (Lei 13.153/2015) já ofereça diretrizes, ainda falta uma estratégia nacional de longo prazo que articule restauração de solos, políticas públicas e participação popular.

Agroecologia é solução no combate à desertificação

“A própria terra ensina a gente. Ela dá sinais de quando está cansada ou fértil”, comenta a agricultora Valmira Ferreira (foto), que aderiu à agroecologia com ajuda dos filhos que estudaram o tema na Escola Família Agrícola. Foto: arquivo pessoal

Enquanto os dados evidenciam um cenário preocupante, iniciativas agroecológicas são utilizadas como ferramenta ao combate à desertificação na caatinga. No distrito de Massaroca, em Juazeiro (BA), a agricultora Valmira Ferreira transformou sua prática produtiva diante do esgotamento do solo causado pelo cultivo convencional.

“Plantamos com muito veneno e adubo, e chegou ao ponto de não produzir mais. O poço artesiano secou. Porém, com a aplicação prática do conhecimento que meus filhos tiveram na Escola Família Agrícola de Sobradinho (Efas), e o apoio técnico de instituições, que fizemos a transição para a agroecologia”, conta Valmira

Hoje, ela é produtora certificada, participa de feiras agroecológicas e integra a cooperativa formada por mulheres da região. Suas práticas incluem cobertura do solo, rotação de culturas e uso de caudas agroecológicas.

Os desafios de convivência das pessoas com seus territórios

Programas como o Um Milhão de Cisternas, que garantem o acesso à água, e políticas públicas como a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (de 2012), têm desempenhado papel importante no fortalecimento dessas práticas no campo. Ainda assim, os desafios permanecem, como a falta de investimento contínuo, necessidade de escalonar iniciativas bem-sucedidas e de envolver movimentos sociais e comunidades tradicionais em pactos pela restauração da terra, aponta Pires.

“A restauração das terras degradadas requer tempo, saberes locais e investimento. Mas também requer reconhecimento da importância das comunidades quilombolas, indígenas e camponesas, que historicamente preservaram e resistiram nesses territórios”
Alexandre Pires

13º CBA vem desaguar agroecologia no Semiárido

Com uma programação repleta de soluções sustentáveis, vem aí o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), entre os dias 15 e 18 de outubro de 2025, no Campus da Univasf em Juazeiro (BA). Com o lema Agroecologia, Convivência com o Território e Justiça Climática, o congresso vai debater como o avanço da desertificação e a intensificação da crise climática exigem respostas urgentes, não só na Caatinga como nos demais biomas brasileiros.

Enquanto isso, experiências como a de agricultoras como Valmira Ferreira mostram que existem possibilidades de convivência das pessoas com os territórios. A agroecologia, nesses contextos, não é apenas uma técnica de cultivo, mas uma forma de cuidar do solo e contribuir na luta pela justiça climática.

Texto: Meiwa Magalhães / Produção: Ana Clara Martins – Estudantes do Curso de Comunicação Social – Jornalismo em Multimeios, da Uneb- Juazeiro/BA

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