A Central da Caatinga, em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), realizou na última quarta-feira (17) a entrega de proteínas para cinco cozinhas comunitárias e solidárias em Salvador. A ação integra o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na modalidade de Compra com Doação Simultânea e contou com o fornecimento de três cooperativas filiadas à Central.
A iniciativa contemplou a distribuição de 2.200 quilos de mix de carne caprina e ovina para ensopado, 4.025 quilos de tilápia e 1.093 dúzias de ovos, alimentos produzidos por agricultores e agricultoras familiares do Território Sertão do São Francisco.
Pela primeira vez, a carne caprina passa a fazer parte do programa no estado, valorizando uma das principais cadeias produtivas e identitárias do Semiárido. O município de Casa Nova, por exemplo, destaca-se nacionalmente com um rebanho de aproximadamente 585 mil cabeças de caprinos e ovinos, segundo dados do IBGE de 2021.
Articulação e fortalecimento da base produtiva
Organizar a comercialização e a base produtiva para atender às exigências do PAA é um dos pilares da Central da Caatinga. A instituição acompanha os editais e articula os produtores por meio de suas cooperativas filiadas. Segundo Jorge Trindade, técnico de apoio à gestão e acesso a mercados da Central da Caatinga, o sucesso da ação demonstra o potencial das políticas públicas quando articuladas de forma integrada.
“Essa ação contribui para o aumento da renda dos agricultores familiares, fortalece a cadeia produtiva da caprinovinocultura e garante o acesso a alimentos de qualidade para o público atendido pelas cozinhas solidárias”, explica Jorge.
Ele destaca, ainda, que o resultado é fruto de um esforço conjunto entre diferentes esferas governamentais. “Enquanto o Governo Federal disponibiliza os recursos para a execução do PAA, o Governo do Estado investe na estruturação de frigoríficos da agricultura familiar, viabilizando o abate e a produção de cortes certificados, em conformidade com a legislação vigente e com os selos de inspeção necessários para a comercialização”, completa.
Do campo à mesa
Para Silvanda Moraes, representante da Cooperativa Agropecuária Familiar de Casa Nova e Região (COAF), filiada à Central da Caatinga, a parceria é estratégica. A Coaf, que atualmente conta com 51 cooperados, forneceu 2.200 quilos de carne caprina e ovina. O volume é resultado do trabalho coletivo direto de 10 famílias cooperadas, com destaque para quatro mulheres que lideraram o processo na comunidade.
“A parceria com a Central da Caatinga é muito importante para nós, porque fortalece a comercialização da nossa produção. Sozinhos, muitas vezes enfrentamos dificuldades, mas essas parcerias permitem um planejamento melhor das atividades no campo”, destaca Silvanda
Ela também ressalta o significado social da ação. “É motivo de muito orgulho saber que os alimentos produzidos com tanto esforço estão chegando a pessoas que realmente precisam. Além de ampliar a renda das famílias agricultoras, a ação fortalece a cadeia produtiva da caprinovinocultura e assegura alimentos saudáveis para populações em situação de vulnerabilidade”, declara Silvanda.
Em Salvador, o impacto de toda essa articulação é sentido diariamente no prato de quem mais precisa. No bairro de Paripe, na periferia da capital, a Cozinha Solidária AMPM funciona desde 2019 e atende entre 250 e 300 pessoas, três vezes por semana, servindo refeições a moradores de rua, catadores de recicláveis e famílias em extrema vulnerabilidade.
Gilberto Nascimento, representante legal da AMPM, relata que a instabilidade das doações sempre foi o maior desafio da cozinha, cenário que mudou com a chegada das políticas públicas. “A nossa principal dificuldade sempre foi conseguir os alimentos por meio de doações. Agora, a parceria com os programas Bahia Sem Fome e Comida no Prato, implantados pelo governo do estado e parceiros, facilita muito o nosso trabalho”, comemora.
Ele também destaca os impactos que vão além da alimentação. “A gente percebe uma melhora na autoestima das pessoas. Quando elas começam a se alimentar melhor, ficam mais felizes”, relata Gilberto. Além das refeições, a cozinha oferece atividades como escolinha de futebol, aulas de capoeira e cursos profissionalizantes, contribuindo para o fortalecimento social da comunidade.
Desafios da Política Pública
Apesar dos avanços do PAA, uma das principais políticas públicas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar e à promoção da segurança alimentar e nutricional no Brasil, ainda há desafios importantes a serem enfrentados.
Segundo Trindade, com a consolidação das cozinhas comunitárias e solidárias, a demanda por alimentos cresceu de forma significativa. No entanto, os recursos atualmente disponíveis não têm sido suficientes para atender plenamente essa necessidade, especialmente considerando que os agricultores familiares mantêm uma produção contínua e possuem capacidade para ampliar a oferta de alimentos.
Outro entrave destacado é o excesso de exigências burocráticas, que muitas vezes limita a ampliação e o alcance do programa. Diante desse cenário, Trindade ressalta que a Central da Caatinga “tem se organizado e buscado alternativas para superar esses entraves, fortalecendo a participação dos agricultores familiares e ampliando sua capacidade de atendimento aos programas de aquisição de alimentos”, declara.




Texto: Comunicação da Central/ Foto: Marcos Paulo
